Sou ou O estado literário
Silêncio. A chuva começa a cair. Solidão. As gotas chicoteiam o vidro. Do outro lado e deste, sou eu. Eu e minha essência. Eu e meu reflexo. Eu e os fragmentos que compõem esse amaldiçoado, mas igualmente abençoado mosaico.
Eu e o que inventei ser minha essência. Eu e cada palavra dita e não dita. Cada desejo imerso no temor, na cautela, nas convenções ilógicas de um mundo sem norte. Eu e cada tique reprimido e denominado maldosamente de falha. Eu e cada falha bem-vinda. Cada cratera natural e positiva. Cada queda necessária. Cada última dança dançada.
Aqui, sou eu. Dentro desse espaço, sou eu. Lá fora, sou.
A chuva segue.
Sou eu.
Cada uma dessas gotas ousadas e tranquilas, sou eu.
Eu.
Minha mente.
Meus sonhos.
Meu perfume amadeirado.
Minha canção reiterada no rádio.
Diamantes.
Aretha.
Eu.
A fé racionalizada. A oração dispensada. O pedido necessário. A dor perpassante.
A luta empenhada.
O desejado retorno para casa.
Sou eu.
Sou a decisão tomada no fragor da batalha.
Sou o sacrifício feito sem reservas.
Sou o abraço e o abraçado.
O sofrimento oculto e desvelado.
A dor.
E Eu.
Sou as notas ambíguas do piano. A rebeldia elegante em pranto.
Sou o sorriso de quem amo. Ostentado. Divulgado.
O sorriso dele.
O sorriso dela.
O sorriso de minha mãe.
O meu sorriso.
Sou o final do filme perfeito. O desejo eternizado na película.
Sou o réveillon atravessado pela ópera de pés tímidos. As luzes cortando a cena.
Sou a mão dada e firmemente apertada no clímax não registrado.
Eu.
Sou o desistir já anunciado. O risco cogitado. O medo do jarrar final. De proclamar adeus.
Sou a noite assustadora, vencida pelo abraço.
O temor existente fora da cúpula.
Sou eu.
Sou muitos.
Sou quem também é.
Sou os que já habitaram e ainda habitam.
Sou a potência dissipada.
Sou a ciência não catalogada.
O ritmo. O ritmar.
Sou quem fica, quando muitos vão.
Sou quem vai quando a ordem é estagnar.
Sou a aventura.
Sou quem ama.
Sou eu.
Sou.
Serei.
Créditos: pixabay


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