História Curta - A Tempestade



Imagem de Igor Schubin por Pixabay

A tarde despedia-se quando nuvens pesadas irromperam no céu e mergulharam a cidade em um cinza familiar. Porto Alegre, a capital mais ao sul do Brasil, conhecia aquele movimento natural. Minutos após, uma forte tempestade atingiria cada metro quadrado da pequena metrópole, encharcando, sem seletividade ou pudor, cada um dos transeuntes. Como reação, o clima na rua transformou-se. Uma miríade de guarda-chuvas de todas as cores existentes surgira imediatamente. Não havia quem, naquelas ruas, vielas e becos, estivesse sem a proteção em suas mãos, aguardando ansiosamente o início da intempérie.

Vinicius acompanhava a transformação através da janela de seu carro, dividindo a sua atenção entre os ágeis caminhantes e o trajeto. Ele respirava fundo, pesado, preocupado com o tempo. Precisava alcançar o aeroporto antes que Lucas, seu namorado, embarcasse no avião. Precisava alcançar o aeroporto antes que seu amor, a pessoa na qual depositara tanto afeto e sentimento, deixasse o país.

Então, a chuva começou. O peito do rapaz passou a acelerar. Morava na capital gaúcha desde a infância, quando abandonara São Paulo com seus pais, dois professores universitários, na época, recentemente contratados pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Vinícius sabia que uma chuva, mesmo a menor de todas, levaria o caos para a cidade gaúcha e isto, por consequência, congelaria o trânsito. Ele não chegaria a tempo. Não a tempo de fazer o que desejava. Não a tempo de impedir o embarque. Não a tempo de evitar a perda de quem amava com todas as forças. 

- Droga! - gritou, enraivecido. Estava em pânico. Amedrontado. O volante foi alvejado por um soco.

Sua mente recordava o que acontecera horas atrás. Recordava a briga, os gritos, a explosão de raiva.

Sentia-se arrependido. Queria não ter brigado. Queria não ter gritado. Queria não ter explodido de raiva. Não contra Lucas. Não contra ele. Nunca contra ele.

Lucas era seu companheiro. De trabalho e de vida. Cinco anos antes, o mero convívio na empresa cedeu lugar a uma emoção nova. Um Happy Hour juntos e Vinícius não sabia mais como viver sem admirar diariamente o sorriso inocente do outro jovem.

Sorriso. 

No momento do conflito, lá estava ele. Um sorriso que parecia acalmar o mais belicoso dos seres humanos. Um sorriso que guardava em si todas as sensações possíveis. Um sorriso que encantava. Porém, Vinicius estava cego. Naquele dia, algo estava errado. Ele estava errado e não podia enxergar. O sorriso deixara de ser visível.

- Você o quê? - questionou, ao escutar a fala.

- Me promoveram, amor - Lucas respondeu, ainda sorridente - A Chefia quer que eu administre a filial na Espanha. 

- Não acredito - disse, confuso - escolheram você?

- Sim. Eu também não tô acreditando. Não caiu a ficha ainda. Uma promoção. É muita coisa, não acha? - o namorado lançou, distraído.

- Acho. Quanto tempo você tem de empresa? 7 anos? Eu que deveria ser promovido. Não você.

- Amor?

- Isso mesmo. Como assim te promoveram? Você não deveria ser promovido. Você não!

O sorriso de Lucas não demorou a desvanecer. Mais algumas palavras e os dois namorados estavam distantes, física e emocionalmente. Vinicius vivera dias ruins naquela semana, com problemas familiares e no trabalho. O outro rapaz, diferentemente do primeiro, experimentara dias tranquilos, com vitórias no campo pessoal e no trabalho.

- Amor, me escuta… Chega disso - Lucas soltou. Segundos sobrevieram e Vinicius desferiu um soco na parede, ao lado do companheiro. 

Silêncio.

Nenhum dos dois disse mais nada. Não existiam palavras capazes de equacionar a situação. Somente o olhar. Um do outro. Um contra o outro.

A respiração acelerada.

Vinicius recua.

Lucas se move e afasta-se. 

A porta se fecha.

O jovem gira a direção do veículo, conduzindo-o pelo tráfego. As lembranças resistem em sua mente. Ele não deveria ter feito isso. Não deveria.

Seu peito salta, como se rompesse a caixa torácica e adentrasse no exterior.

Horas mais cedo, acordara em sua cama. A cabeça dolorida. Uma garrafa vazia ao pé do móvel Ao seu lado, um espaço vazio. Ele gritou. De dor, de solidão. De saudade.

No travesseiro contíguo, um bilhete. Um adeus, com hora marcada. Vou embora, anteciparam minha ida para a Espanha, dizia em letra cursiva. O papel parecia transparente. Molhado. Por algo, por alguém.

Vinicius pula da cama. Não. Precisava impedir. Precisava desculpar-se. O relógio marca o tempo e ele é curto. 

Nas ruas, a chuva. A própria natureza mostrava saber o que estaria prestes a acontecer.

- Droga! - repete, quando, próximo do aeroporto, encontrava-se preso no congestionamento - eu vou perder ele.

Vinicius encara o smartphone, preso ao painel. Um aplicativo monitora o voo. Ele ainda está no aeroporto. O rapaz respira fundo.

Minutos passam e o aplicativo apita. O avião começa a taxiar. Vinicius arfa e fita a janela. A aeronave surge, subindo aos céus.

Ele abre a porta do carro e põe-se de pé, na rua. A chuva está caindo, como lâminas, atingindo-o em linha reta de cima para baixo. Buzinas e gritos preenchem o ar. No horizonte, já escurecido pelas nuvens de tempestade, o avião de Lucas se estabiliza, passando a desaparecer lentamente.

- Me desculpa, meu amor - diz, baixo. Tão baixo que ninguém escuta.


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